segunda-feira, 24 de abril de 2017

Olhar triste da menina



Aparenta ser bem jovem. Porem carrega um olhar distante e triste. Tem os olhos mergulhados, parece que na tristeza de seus dias. Mas como de seus dias? Uma vez que seus dias são ensolarados e, seus caminhos são recobertos de flores da época de sua vida.

eus cabelos escorrem em seus ombros. Suas orelhas não possuem brincos e, nem precisa, pois o brilho de suas orelhas (égua! Orelha tem brilho?) ofuscariam tais pendrulicarios. Tem um pescoço alongado, talvez para com seus olhos triste tentar avistar o outro lado da vida...

Mas a menina continua imóvel, olho para ela e ela nem pisca. Tem um sorriso em seus lábios, está preso, ela está prendendo o sorriso. Talvez por não vê alguém a quem quer doar esse sorriso...

Ela estar agora colocada em cima da mesa. Eu não a conheço. Encontrei a foto dessa menina hoje à tarde na entrada da repartição. Mesmo na foto a menina tem o olhar triste.

sábado, 22 de abril de 2017

Homem piracuí



Completa hoje 87 anos de vida. Felicidades para ele. Alguém pode achar pouco tempo, até mesmo desdenhar. Acontece que não conhece suas origens. Agora, chegar a essa idade de vida, saudável, carregando alegria em seus olhos, qualquer um dessa atual geração poderá chegar. Mas, prestem atenção para a geração dele, para sua origem... Ele é do século passado!

Caboclo amazonida, nascido às margens dos rio/igarapés, vaqueiro que foi, costuma afirmar que sua mão não fechava de tão grossa que era devido ao manuseio com as cordas (laços e amarras). Mas tudo bem. Ele nasceu quando a expectativa de vida era até aos 50 anos, era uma festa quando se atingia tal idade (muitos não aportaram aos vinte). Hoje segundo as estimativas/estudos é de 80, 90, pra frente. Ele completa 87!

Teve um inicio de vida privilegiada. Tomou banho de rio, pescou, remou, empurrou canoa com varejão nas travessias dos baixios, comeu fruta in natura. Sua alimentação básica desde o themb até aquela antes de se agasalhar na noite, foi o peixe: assado na brasa, cozido... Durante as grandes enchentes do rio, um bom piracui, o qual era reserva obrigatória pendurado em envira acondicionado em paneiro na cumeeira da cozinha.

Desde jito até hoje se alimenta dessa farinha de peixe. É uma farinha sim, de peixe, invenção indígena/cabocla/nativa amazônica cujo preparo conserva a carne por muito tempo. É uma carne de peixe desidratada, não é qualquer um que saber fazer. É uma receita, um fazer daqui da região. Hoje na atual culinária usa-se a farinha em vários pratos: desde a farofa até ao piracui de casaca.

O aniversariante de hoje prefere sem casaca. Prefere somente com a farinha e o alho/óleo: farofa nativa. Podem dizer/falar: grandes coisas isso! É que ele até hoje se alimentar assim: Piracui todos os dias, alias, é o prato diário do mestre Proeiro: Piracui desde o café até o jantar...
 
Costuma dizer que seu remédio de longividade é sua alimentação. Pasmem! Ele ainda toma as suas doses de cachaça, todos os dias. Mas é cachaça/aguardente da boa tirando gosto com piracui. Sua relação com o peixe desidratado é simbiótica... Felicidades e vida longa ao Homem Piracui, cuja única pavulagem é a de que o piracui seja de acari.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Será um peixe



Encontrei com ele de manhã bem cedo, eu já carregava a sacola com pães todos quentinhos. A garrafa de café estava vazia, ainda não tinham providenciado o elixir matinal, por qualquer motivo. Mas minha obrigação estava cumprida: os pães estavam à mesa.

Ele se voltou a mim e começou a me indagar sobre os rios da região, queria saber de tudo: profundida, largura, distancia e se existia bichos que pudessem devorar um ser humano. Tentei explicar dentro de minhas poucas experiências sobre o assunto. Na verdade fui empurrando com a barriga como se diz, quando não se tem domino do assunto.

Quis saber o motivo de seu interesse pelo assunto das águas. Enquanto lhe indagava, ele arrumava uma mochila, pude observar alguns apetrechos como boia/prancha de natação, protetor de ouvidos e um óculo...

Insistir no assunto, ou melhor, quis saber o porquê de sua indagação. Ele desconversou pedindo-me um copo de suco, mas que fosse natural. Ainda bem que tinha abacaxi cortado no congelador.

Alguém o chamou no portão. Ele se despediu e foi-se com uma toalha no ombro. Em cima da cadeira na sala um papel. Era a ficha de inscrição de sua competição. Ele é nadador! Já é medalhista.

Que vença mais uma. Ele é meu neto de nove anos de idade. Acho que ele será um peixe.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Parece que foi ontem



Naquela sexta feira o dia amanheceu por debaixo de uma chuva, somente quem conhece a região amazônica entende bem o seu período chuvoso. Escureceu rapidamente. O dia amanheceu ensopado, encharcado de uma tristeza. Nenhum sinal de vida foi esboçado naquele momento...

Em uma emissora de rádio um programa matinal, onde o apresentador emitia suas opiniões sobre tudo, um generalista, mesmo com sua voz fanhosa e com certa dificuldade na articulação das palavras, não estava nem ai. O que queria era mostrar serviço a receber seu comercial...

De repente o silencio total, a voz do locutor desapareceu do áudio, tentei sintonizar outra, também somente uma chiadeira. Retornei para a antiga estação... uma voz chorosa anunciava que um avião acabará de cair nas proximidades do quilômetro nove...

Sons de sirene tomaram conta da cidade, eram ambulâncias, carros pipas do corpo de bombeiro, carro tumba do IML, viaturas da policia e até veículo de uma funerária vai batendo assas acompanhando os carros que seguem em direção ao acidente anunciado.

Todas as emissoras passaram a anunciar o acidente. Algumas das dezesseis já estavam no local. Todos colados nas transmissões para saberem quem morreu e se morreu, qual tipo de avião?

Para a tristeza dos familiares e eleitores. O avião que cairá era do Deputado Dalton Martins, conduzido/pilotado por ele mesmo. A tristeza tomou conta de toda a cidade... Isso hoje 20 de abril faz cinco anos que ocorreu.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Joe vai chegar



Foi a noticia que me chegou através de um telefonema. Na minha cabeça surgiu a imagem de um tempo passado. E bote tempo! Tempo em que se podia reunir nas esquinas, tempo em que a ternura podia florescer em qualquer jardim...

Nesse tempo que passa na minha imaginação, vem às musicas de Tim Maia e com elas as imitações, quer dizer, pessoas cantando suas musicas e tentando atingir a sua interpretação. Alguns chegavam bem próximos a ele.

Um desses que se aproximava era o Joe. Ah! Esqueci-me vocês não conhecem o Joe. Pois bem, o Joe é mocorongo. Tá bom. Mocorongo é quem nasce na cidade de Santarém.

A casa ficava na Rua São José lá no morro do sapo, foi nessa residência de madeira, ou melhor, no pátio dessa residência que um rapaz vestido em um fato feitio/modelo safari cor caqui, apossado de um violão, soltou/esgoelou a voz entre os fios do bigode e da barba, sim, ele era barbudo.

A voz que ecoava daquele pátio, não era uma voz identificada com as vozes batidas e rebatidas no bairro durante as serestas. Era uma voz diferente, alguém identificou com a voz do Tim Maia, e a interpretação que interpretava ou a modinha que cantava era “Padre Cicero”. Pense em uma semelhança. Para muitos era o próprio Tim quem estava ali cantando.

Depois, noutro dia fomos saber que era o Joe quem cantava naquela noite passada a musica de Tim Maia. Para nós ficou conhecido como o cantor que imitava o Tim. Em seguida, soubemos que já tinha estrada na interpretação musical. Tinha passagem em festivais. Principalmente o Festival de Santarém na dec. 70.

O Joé logo retornou a sua terra. E bote tempo em que foi embora. Somente agora ele retorna a capital tucuju, só uma coisa, a casa onde se apresentou pela primeira vez no morro, não existe mais.

Muitos estão a se perguntar como está o Joe? Ainda usa roupa estilo safari? Ainda usa barba? Mas de qualquer jeito que estiver que seja bem vindo a terra onde encantou com “Padre Cicero!”. O Joe vai chegar, aguardem.

Em tempo: a residência onde Joe se apresentou era do Radialista Amazonas Tapajós.